Desafio atual é saber conciliar a comunicação no veículo com a segurança viária
Em maio de 1922, um americano de 18 anos, George Frost, inventou e instalou o primeiro rádio de automóvel em seu Ford T – justamente o modelo de carro apresentado por Henry Ford em 1908. Nos seus primórdios, o rádio ocupava tanto espaço que, se o carro tivesse bancos traseiros, eles seriam ocupados pelo rádio e a antena. É provável que o autorrádio tenha sido o primeiro dispositivo eletrônico, embarcado em veículo, capaz de provocar distração no motorista.
Imagine a dificuldade para trocar de estação... Mas os avanços tecnológicos dos acessórios sempre caminham junto com o desenvolvimento da indústria automotiva. Atualmente, as fabricantes desenvolvem tecnologias para que os acessórios tenham interface com aplicativos como Twitter, Facebook, músicas on-line, navegação GPS e uso de telefone.
Imagine a dificuldade para trocar de estação... Mas os avanços tecnológicos dos acessórios sempre caminham junto com o desenvolvimento da indústria automotiva. Atualmente, as fabricantes desenvolvem tecnologias para que os acessórios tenham interface com aplicativos como Twitter, Facebook, músicas on-line, navegação GPS e uso de telefone.
Tudo isso pode ser agrupado em um monitor de 8 polegadas instalado no painel do veículo – as funções podem ser ativadas por meio de comando de voz, toque na tela ou em botão no volante.
Os consumidores americanos aprovam esses novos dispositivos, mas admitem que a chance do motorista se distrair com tudo isso vai aumentar. É o que tem deixado autoridades e especialistas norte-americanos em segurança viária cautelosos. O Departamento de Transporte deles (DOT, sigla em inglês) pretende concluir um conjunto de diretrizes que ditará protocolos de segurança no uso destes dispositivos.
O que os estudos dizem
O National Highway Traffic Safety Administration (NHTSA) informa, em seu boletim de setembro de 2010, que “nas estradas norte-americanas, a maioria das mortes relacionadas à distração na condução de veículo, 84%, foi associada à classificação geral de condução do veículo de forma descuidada ou desatenta. Nesta classificação se incluem: trocar CD no rádio, uso de telefones celulares, conversar com o passageiro, comer, olhar a paisagem, a combinação entre estas etc.”.
Situação
|
Onde está a cabeça
do motorista |
O que provoca a distração
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Distração interna
|
A atenção do motorista está voltada para
algum evento, objeto, pessoa ou atividade no interior do veículo. |
Ajustar o rádio ou o ar-condicionado, conversar
com passageiro, dar bronca nas crianças enquanto dirige, usar telefone celular, pegar objetos caídos, ler revistas, mapas... |
Distração externa
|
O motorista está de olho em algum evento,
objeto, pessoa ou atividade do lado de fora |
Procurar um endereço de rua, ler placa,
admirar a paisagem, paquerar enquanto dirige, olhar para local em que aconteceu acidente... |
Desatenção
|
O motorista está absorto nos seus próprios
pensamentos. |
“Sonhar acordado”, ficar pensando
em problemas profissionais, preocupar-se com questões familiares... |
Nos acidentes de automóvel, as autoridades americanas consideram difícil identificar a causa específica da distração. Quando foi possível identificar como causa do acidente o uso de telefone celular, faltou a informação sobre qual função do telefone estava sendo utilizada (se o motorista estava falando, discando, teclando mensagens de texto, conferindo envio ou recebimento de SMS...).
Em 2009, o estudo “Distração do Motorista na Operação de Veículo Comercial”, do NHTSA, investigou os acidentes ou quase acidentes provocados por distração ao volante de motoristas de caminhão. O comportamento dos motoristas foi monitorado por sensores e câmeras de vídeo adaptadas nas cabines dos caminhões. Os resultados, resumidos, são apresentados em gráfico desta matéria.
O risco identificado no gráfico não garante que falar ao telefone celular com “viva-voz” seja absolutamente seguro em todas as situações e para todos os condutores. É preciso ter em mente que essa comunicação representa apenas uma fração dos estímulos que podem chamar a atenção do motorista.
Estudo semelhante realizado em 2007 com condutores de carros de passeio, chamado “Análise da Desatenção do Motorista”, também do NHTSA, é outro que indica fatores de distração do condutor. Embora seja difícil estabelecer com precisão as relações de risco entre os estudos citados – em razão das particularidades de cada um –, é razoável admitir que as chances de se envolver em acidentes causados por distração seguem as estimativas apresentadas no gráfico e podem ser aplicadas aos condutores de outros tipos de veículos.
Do outro lado do Atlântico, o estudo sueco “Os telefones celulares e outros dispositivos de comunicação e seu impacto na segurança rodoviária – Uma revisão da literatura”, do The Swedish National Road and Transport Research Institute, também contribui para o debate.
Esta revisão da literatura reafirma a diminuição do desempenho do motorista devido ao uso do telefone celular, mas indica que não é possível tirar quaisquer conclusões sobre o real impacto de segurança no uso do celular em termos de frequência de acidentes.
O celular impõe uma série de distrações: quando recebemos uma ligação telefônica (distração auditiva), pegamos o aparelho (distração visual), atendemos manualmente (distrações motora e visual) e conversamos (distração cognitiva e auditiva).
Esse processo todo limita consideravelmente a capacidade de concentração que você precisa ter para dirigir. Isso está associado ao tempo que se leva para completar as atividades, sua complexidade, a habilidade do condutor e as circunstâncias do tráfego.
Não há provas seguras de que a utilização de “viva-voz” durante a condução elimina os perigos da distração. Mas dispositivos do tipo “viva-voz” ou “mãos-livres”, ativados por comando de voz, são menos arriscados – desde que o condutor não tenha de tirar os olhos da via.
Uso de álcool x uso do celular
O Virginia Tech Transportation Institute – VTTI– fez interessante comentário sobre a comparação entre dirigir alcoolizado e usar o celular enquanto dirige: “Recentes resultados onde foram usados simuladores de condução sugerem que conversar ao telefone segurando-o pela mão é tão perigoso quanto dirigir alcoolizado dentro do limite legal norte-americano.”
Os resultados dos estudos de condução indicam claramente que este não é o caso. Comparações recentes feitas em estudos teóricos exageram o risco de uso do telefone celular com relação aos efeitos muito graves do uso de álcool na condução de veículo. “Dirigir embriagado aumenta o risco de um acidente fatal aproximadamente em sete vezes em relação ao condutor sóbrio durante a condução.”
“Usando somente as estatísticas de acidentes fatais, se falar ao telefone fosse tão arriscado quanto dirigir bêbado, o número de acidentes fatais teria aumentado aproximadamente50% na última década em vez de permanecer praticamente inalterado.”
No Brasil
Aqui, as estatísticas de acidentes de trânsito não identificam, de forma confiável, as causas e a relação delas coma gravidade dos acidentes. A falta de dados impossibilita a avaliação sistemática dos acidentes provocados pela distração. Menos ainda se pode dizer em relação aos acidentes que podem ter sido causados por uso do celular.
O Código de Trânsito Brasileiro, em seu artigo 252, diz ser passível de penalidade de multa e 4 pontos na carteira aquele que “dirigir o veículo utilizando-se de fones nos ouvidos conectados a aparelhagem sonora ou de telefone celular”.
A proibição, em princípio, se aplicaria a todas as funções atualmente disponíveis em um aparelho celular. Há entendimentos de que a proibição de uso se estenderia ao acessório “viva-voz” e ao fone monoauricular, embora não haja na lei restrição expressa ao uso destes acessórios. E não dá para relativizar a norma.
Lei parou no tempo?
Agora, imagine que o condutor, teoricamente, não está autorizado a usar o aplicativo GPS instalado no telefone celular, mas pode utilizar o aparelho GPS acoplado ao vidro ou ao painel do carro. Ou que o condutor está proibido de ouvir, por meio de conexão sem fio com o rádio, a playlist disponível no aparelho celular, mas pode escolher, trocar o CD e ouvi-lo no rádio do carro à vontade.
O telefone celular tornou-se multifuncional, bem diferente da função exclusiva de comunicação por voz, quando da época que passou a vigorar o CTB. Os acessórios automotivos também se desenvolveram e já permitem conexão sem fio, comandos por voz, controles de funções no volante, computador de bordo...
A distância que separa a teoria legal da prática cotidiana é imensa. Em São Paulo, pesquisa realizada pela ONG Nossa São Paulo indica que o tempo médio de deslocamento pelas vias da cidade é de 2 horas e 49 minutos, o que significa uma “perda” de 31 dias (um mês) por ano. Mais dias parados no trânsito do que o período de férias oferecido aos empregados!
Dado oficial da CET/SP indica que, em 2011, a velocidade média dos carros no pico da tarde era de 18 km/h. Contudo, para aqueles que dirigem nas principais ruas e avenidas da cidade de São Paulo, é fácil notar que, nos horários de pico, os veículos rodam praticamente na mesma velocidade dos pedestres: aproximadamente 6 km/h.
No âmbito da fiscalização, é notório que os agentes da autoridade não têm condições seguras de identificar se, e quando, o condutor está usando conexão sem fio associada ao “viva-voz” ou ao fone de ouvido.
A otimização do tempo e a necessidade de comunicação são características imprescindíveis à sociedade atual. Conciliar essas características com segurança viáriaé o desafio.
Não bobeie
Usar o celular em “viva-voz” não é completamente seguro, poiso risco de acidente está na “distração cognitiva”. Contudo, o dispositivo permite ao motorista manter os olhos na via e as mãos no volante.
Se precisar atender a ligação enquanto dirige, seja breve e combine conversar depois. A situação de tráfego e o teor da conversa podem gerar alteração emocional, aumentando as chances de acidente.
Se a conversa for urgente, pare o veículo em local seguro.
Mantenha os olhos na via e as mãos no volante.
Não troque mensagens de texto enquanto dirige.
Não use o telefone celular segurando-o com uma das mãos.
Se a comunicação por texto for muito necessária, pare o veículo em local seguro.
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