O Mais Médicos foi criado para levar médicos aos municípios mais
vulneráveis do país, mas os dados mostram que 320 dos 1.400 municípios
com piores índices de desenvolvimento (baixo e muito baixo) não se
inscreveram para receber os médicos. São áreas de IDH "baixo" e "muito
baixo", segundo o Pnud, a maioria na Paraíba (78), Maranhão (35),
Alagoas (32) e Piauí (30).
Ipixuna do Pará (PA) e Cachoeira do Piriá (PA) também afirmam ser
"muito caro" manter o novo médico.
Já as prefeituras de Jordão (AC),
Chaves (PA) e também de Ipixuna do Pará disseram que não conseguiram
efetuar o cadastro em nenhuma das etapas do programa.
O Ministério da Saúde afirma que o Programa Mais Médicos tem como
objetivo ampliar o atendimento nas unidades básicas de saúde. “O
programa é uma resposta à demanda dos próprios prefeitos, que não
conseguiam contratar médicos para atuar nos municípios, principalmente
municípios do interior” e “até o momento, 4.025 municípios já aderiram
ao programa”, diz em nota. A pasta também afirma que não detectou
problemas de inscrição de cidades, mas que ainda apura o que ocorreu
nesses municípios.
“Nossa cidade é uma cidade sem arrecadação. Perderíamos recurso”,
afirma o secretário de Saúde de Caxingó (PI), de 5 mil habitantes,
Antonio Bruno Fontinele da Silva, sobre o Mais Médicos.
Para Organização Mundial de Saúde (OMS) ideal é ter 1 médico a cada mil
habitantes. Segundo o governo, o Brasil possui 1,8 médico para mil
habitantes, número baixo comparado a Argentina (3,2) e Espanha (4).
Classe médica diz que não há escassez de profissionais, e sim, má
distribuição.
“Lá, para conseguir um ultrassom, não consegue marcar. Tudo é uma
questão de equipamento. Os profissionais não têm como fazer milagre”,
defende.
O Ministério da Saúde afirma também que, "além de pagar diretamente
pelo médico, ainda repassa mais R$ 4 mil para o município compor a
equipe de saúde da família". "O Ministério da Saúde fará o pagamento da
bolsa diretamente ao médico, no valor de R$ 10 mil. Antes, os municípios
que tinham que contratar os médicos diretamente e arcar com esse custo.
Agora, esse custo será federal e os municípios ficam a cargo de
alimentação e moradia desses profissionais."
Gastos extras
“Não temos condições de manter um médico na zona rural de segunda a
sexta. É muito caro. Ele teria que se deslocar 100 quilômetros na terra
batida, três horas, para atender”, afirma o secretário de Saúde,
Tellyson Araújo. “Isso giraria em torno de R$ 4 mil por mês a mais em
cada posto, é um negócio que não está atraindo.”
O gestor afirma, no entanto, que o município se inscreveria no programa
caso o governo aumentasse a contrapartida em infraestrutura. “Tinha que
ser os dois, médico e estrutura. Falta complementar o programa. Os
médicos querem vir, pagando ele vem. Aí não tem dúvida que a gente ia se
inscrever”, completa.
Hepatite
A coordenadora interina da Atenção Básica de Saúde, Marília Carla de
Oliveira, afirmou que "não existe a necessidade de solicitar
\\\\\\\\[Mais Médicos]". "Profissionais a mais não fariam diferença,
pois a escala de médicos da saúde básica está completa", disse.
A agricultora Maria Santina da Silva, de 65 anos, mora no povoado Alto
Vermelho, em Manari, contou sofrer de pressão alta, mas não conseguiu
atendimento médico na Casa de Saúde João Paulo II, em janeiro. "Tive que
viajar para Tupanatinga \\\\\\\\[a 38 km de distância] em carro
fretado", diz. Segundo ela, dos 17 filhos que teve, apenas cinco
sobreviveram. “Dos que morreram, só um chegou a fazer um ano, por causa
das dificuldades”, relata.
Para o atendimento básico, a Secretaria Municipal de Saúde afirma que
existem três médicos para quatro postos, mas que serão construídos mais
quatro postos. Segundo a secretária, no entanto, o Ministério da Saúde
poderia ajudar mais o município “na liberação de equipamentos, remédios,
exames”. Sobre o surto de hepatite, ela diz que todos os casos estão
sendo acompanhados por equipes de saúde da família e que aguarda laudos
sobre possível contaminação da água na cidade.
Sacrifício
Segundo a prefeitura, no entanto, o investimento seria “sacrifício”
para a cidade, que conta hoje com oito médicos e nove unidades de saúde.
“Teria que ter outra equipe de retaguarda para trabalhar com esses
médicos”, afirma Junior.
Falha
“Mandei vários e-mails. Tenho até número de protocolo. Foi um problema
no ministério, liguei no 136, mas até agora nada. Aqui a internet,
telefone, é muito ruim. Mas vamos tentar entrar na próxima chamada”,
afirma Castro.
São 6.577 habitantes, mais da metade na zona rural. “Nossa esperança é
conseguir aderir por pelo menos mais um médico. Se não der certo na
próxima, tem que correr atrás. Se não convencer, procura outro. Não pode
é parar o serviço”, afirma o secretário, que vai tentar nova inscrição
na próxima fase.
Cadastro
A administração é alvo de ação na Justiça Federal do Pará por
irregularidades no Sistema Único de Saúde (SUS), baseada em relatório do
Departamento Nacional de Auditoria do SUS (Denasus), que constatou
remédios vencidos, falta de vacinas, nenhum atendimento odontológico,
tendência de aumento de casos de malária e até material hospitalar em um
banheiro de uma unidade mista de saúde.
“É a falta de estrutura de trabalho e falta de profissional também,
porque o médico sozinho não faz nada”, afirma. “Nessas cidades temos a
‘ambulancioterapia’: coloca na ambulância e manda para Belém.”
FONTE: G1






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